Reflexões a 25 mil pés de altitude

Em abril passado cedemos um de nossos avaliadores a uma fundação norte-americana. Recebemos ontem este bilhetinho enviado por ele numa garrafa que nos chegou boiando pelo Atlântico:

Voar sempre me faz refletir. Há algum tempo voava por majestosas nuvens de tempestade entre São Paulo e Boston, voltando para casa, ruminando sobre a empresa que acabava de deixar. Sem mergulhar nos detalhes dos meus pensamentos, tentei escavar as origens comuns das experiências que passei entre meus colegas da Plan.
You'll get there

A Plan parece ser uma entre um punhado de instituições brasileiras que exclusivamente se dedicam ao monitoramento e à avaliação. Além disso, a Plan avidamente solicita trabalho de uma diversidade de clientes. O perfil variado dos clientes requer mais do que uma estratégia inteligente: cria um ambiente de projetos forçosamente artesanais e personalizados.

O que me impressionou e ainda me impresiona sobre meus colegas foi que, em um ambiente avesso ao risco e à incerteza, não cederam ao reflexo comum de se simplificar e especializar. Enquanto estava lá, nem estreitaram seu campo de clientes, nem se restringiram a um conjunto definido de métodos independentes da natureza do projeto.
Com um esforço incansável, evitavam se considerar especialistas oniscientes que chegam para resolver definitivamente os problemas dos outros. Ao contrário, se desafiaram a aprender, a considerar profundamente cada situação e evoluir ao lado de cada projeto. Enquanto projetavam uma imagem de solidez profissional, internamente conservaram um ambiente honesto, aberto e flexível que encorajava a experimentação e aceitava os riscos inerentes a isso, assim protegendo a chama delicada da inovação e da criatividade.

O que a Plan faz não se traduz fluidamente para um folder promocional ou para um desses sites desses de consultoria cheio de palavras-chave (“synergistic innovation in evaluative practice for a complex global community”…blá,blá,blá). Mas é essa a recusa do caminho fácil, a dedicação invisível desta empresa (além das capacidades incríveis dos indivíduos), que faz da Plan uma equipe formidável.

Não posso imaginar um grupo com o qual me orgulharia mais de ter trabalhado.

Sinceramente,
Will

Avaliação na Plan, 5 anos depois

Em 2008, quando a Plan éramos só eu e a Paula, competentíssima ajudante num projeto que introduzia a gestão por resultados na Prefeitura de São Paulo (então no hiato entre uma carreira na Bolsa de Mercadorias e Futuros e o que viria a ser seu encontro com a vocação de professora de letras no ensino médio), eu sonhava que em 2013 a gente tivesse algo parecido com atuação nacional. Imaginava que um bom indicador de sucesso da empresa seria ter ajudado na implantação de programas com beneficiários no Brasil todo, algo como ter um ministério como cliente ou sair a campo fazendo surveys com milhares de casos que seriam lidos por quem tinha poder de decidir.

Colunas em que a gente de vez em quando se apoia
No final deste mês terminaremos um projeto de caracterização em 18 cidades distribuídas por todas as regiões do país. São 18 consultores em campo e potencialmente centenas de milhares de beneficiados. Talvez, enfim, meu objetivo “quantitativo” de 2008 esteja sendo cumprido. Significa muito para todos aqui da Plan; será nosso rito de passagem para o mundo das consultorias “adultas”.

Mas essa não foi nossa conquista principal.

Lembro que, à época, em meio a assistentes sociais desconfiadas, arquitetos sobressaltados, sociólogos reticentes, pensava também que, se em 5 anos de empresa tivéssemos conseguido levar um pouco da racionalidade da avaliação para meios em que o discurso especulativo prevalecia, teríamos ali uma grande vitória. Refiro-me ao debate contínuo de inspiração canônico-teórica, crítico sem dúvida, e humanista no bom sentido de sensível às muitas dimensões da existência, mas estranhamente desconfiado da racionalidade explicativa.
Ora, esse objetivo (“qualitativo”, por assim dizer) alcançamos mais rapidamente do que prevíamos ao trabalhar convencendo as pessoas de que a objetividade não é inimiga da sensibilidade, da teoria, ou dos projetos de transformação. Ao enfatizar que o conhecimento que se apoia sobre a verificação não é apenas instrumental, mas iluminador.
(Verificação é um problema que na filosofia da ciência se traduz em: “como você sabe que o que está afirmando reflete a realidade?”. Descreva os conceitos que está a empregar. Fale sobre as ferramentas que utilizou para observá-los. Explicite seus indicadores, os casos colhidos, sua representatividade.)
Explique-nos, gestor da área social, o que ocorreu e convença-nos de que seu programa melhorou a vida das pessoas, como, quanto, quando.
As vezes em que vi olhares desconfiados do “positivismo” se abrirem aos poucos às  possibilidades transformadoras do saber positivo no decorrer de um projeto foram as mais gratificantes, sem dúvida. Ali sentidos fundamentais da avaliação de programas sociais foram compreendidos: mudar a vida das pessoas para melhor, fazer mais com menos, fazer direito. Todo método decorre daí. Não importa se “quali” ou “quanti”, desde que traga respostas as mais verdadeiras possíveis para as perguntas certas. E perguntas certas são aquelas que têm nexo com a transformação pretendida.
E, não menos importante, me dou conta de que a Paula, super racional ex-gestora corporativa hoje professora de francês, e os demais profissionais que trabalharam aqui desde então, têm em comum essa virtude de buscar objetivamente as possibilidades humanas do desenvolvimento social, o que define em grande medida a Plan como instituição.

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