Reflexões a 25 mil pés de altitude

Em abril passado cedemos um de nossos avaliadores a uma fundação norte-americana. Recebemos ontem este bilhetinho enviado por ele numa garrafa que nos chegou boiando pelo Atlântico:

Voar sempre me faz refletir. Há algum tempo voava por majestosas nuvens de tempestade entre São Paulo e Boston, voltando para casa, ruminando sobre a empresa que acabava de deixar. Sem mergulhar nos detalhes dos meus pensamentos, tentei escavar as origens comuns das experiências que passei entre meus colegas da Plan.
You'll get there

A Plan parece ser uma entre um punhado de instituições brasileiras que exclusivamente se dedicam ao monitoramento e à avaliação. Além disso, a Plan avidamente solicita trabalho de uma diversidade de clientes. O perfil variado dos clientes requer mais do que uma estratégia inteligente: cria um ambiente de projetos forçosamente artesanais e personalizados.

O que me impressionou e ainda me impresiona sobre meus colegas foi que, em um ambiente avesso ao risco e à incerteza, não cederam ao reflexo comum de se simplificar e especializar. Enquanto estava lá, nem estreitaram seu campo de clientes, nem se restringiram a um conjunto definido de métodos independentes da natureza do projeto.
Com um esforço incansável, evitavam se considerar especialistas oniscientes que chegam para resolver definitivamente os problemas dos outros. Ao contrário, se desafiaram a aprender, a considerar profundamente cada situação e evoluir ao lado de cada projeto. Enquanto projetavam uma imagem de solidez profissional, internamente conservaram um ambiente honesto, aberto e flexível que encorajava a experimentação e aceitava os riscos inerentes a isso, assim protegendo a chama delicada da inovação e da criatividade.

O que a Plan faz não se traduz fluidamente para um folder promocional ou para um desses sites desses de consultoria cheio de palavras-chave (“synergistic innovation in evaluative practice for a complex global community”…blá,blá,blá). Mas é essa a recusa do caminho fácil, a dedicação invisível desta empresa (além das capacidades incríveis dos indivíduos), que faz da Plan uma equipe formidável.

Não posso imaginar um grupo com o qual me orgulharia mais de ter trabalhado.

Sinceramente,
Will

A Agenda de Resultados – Parte I: Brasil

Em abril tive a sorte de visitar Brighton, no Reino Unido, para o congresso do Big Push Forward, um núcleo de acadêmicos, líderes de ONGs internacionais e avaliadores profissionais preocupados com o que chamam de Agenda de Resultados (Results Agenda) no âmbito da avaliação. Para participar da conferência foi necessário compartilhar uma “experiência” pessoal da Agenda de Resultados. Naturalmente, compartilhei minhas impressões (incipientes) sobre  a falta dessa agenda no cenário brasileiro:

Minhas experiências quotidianas no Brasil continuamente me fazem pensar como a Agenda de Resultados é  incompatível com a cultura da nação. A incompatibilidade geral certamente se entrelaça causalmente com a falta da presença da Agenda no cenário nacional. Eu, com a minha herança do ‘Norte Global’, também sinto a falta do que chamaria uma ‘cultura de avaliação’. Não sou antropólogo, mas enxergo que a cultura brasileira tem um jeito distinto de atribuir  responsabilidades, discutir objetivos e criticar, que eu estou constantemente aprendendo. Minha empresa trabalha com contratos públicos, fundações privadas e ONGs. Nenhuma vez ouvi um cliente perguntar sobre um ensaio clínico aleatorizado. Projetos quantitativos são escassos. Treinamento quantitativo é concentrado numas poucas instituições. Neste sentido, a empresa tem suas razões, por exemplo, para introduzir/enfatizar a ideia de um grupo de controle aos clientes novos. Eu concordo com o nosso meta-objetivo de instilar uma mentalidade mais orientada aos resultados [de programas sociais]. A questão é se eu posso articular de forma convincente como esta mensagem pode se modificar, em condições erradas, na ‘Agenda de Resultados’ (com suas conotações pejorativas).

No momento, o campo brasileiro de monitoramento e avaliação é pequeno, mas seus membros são sérios, bem treinados em geral, e altamente profissionais – daí o setor estar pronto para um crescimento enorme. Como vêm duma nação que foi por muito tempo economicamente isolada , uma líder regional, e um ator global importante, os brasileiros parecem seletivos em relação a ideias importadas [ideologicamente]. Ou seja, o Brasil pode ser um dos lugares mais importantes no mundo para o desenvolvimento da cultura e da prática da avaliação no futuro. Finalmente, o momento é AGORA, no começo, no momento em que as borboletas têm potencial máximo de gerar furacões.

(traduzido do inglês)

São as minhas observações informais, feitas sem consultar a ninguém, e certamente enviesadas pelas particularidades de minha posição e história pessoais. Será que servem para gerar uma discussão crítica com vocês, caros leitores?

Qual é o caminho que uma pessoa segue para entrar neste setor? Como se destaca- dos demais?

Como se posiciona o setor brasileiro de M&A em relação a  setores, escolas de pensamento e discussões internacionais? Latino-americanos? Norte-americanos? Quais são as suas particularidades?

Deixo aberto – quais são as suas opiniões?