Minha Casa Minha Vida, 6 anos depois

Depois de seis anos do lançamento do Minha Casa Minha Vida, programa de subsídio à construção de casas para famílias de baixa renda, as primeiras avaliações começaram a ser publicadas. No mês de abril o LabCidade (FAU/USP) divulgou avaliação dos empreendimentos de São Paulo e o Observatório das Metrópoles (Órgão do INCT), dos empreendimentos no Rio de Janeiro.

Os estudos revelaram dinâmicas particulares de cada localidade, das quais destacaremos aqui duas: por quê integrantes da faixa de renda inferior do Programa se inscrevem para imóveis destinados à faixa intermediária, e as lógicas espacial e urbana sob as quais os empreendimentos foram realizados.

Com o objetivo de dar a famílias de baixa renda acesso à casa própria, o Programa estabeleceu, desde o início, as faixas de renda e o número de unidades que seriam construídas para cada uma. Seria uma forma de garantir que o investimento social chegasse ao público desejado.

Dentre as três faixas existentes[1], a avaliação do Minha Casa Minha Vida no Rio de Janeiro mostrou que os interessados no programa que se encaixavam na Faixa 1 —e que deveriam contribuir com R$ 50 mensais, um pagamento simbólico haja vista a previsão de subsídio integral a esse público— começaram a buscar o Programa por meio do financiamento disponível para a Faixa 2, ou seja, abrindo mão do subsídio “integral” por um subsídio parcial (contribuição superior a R$ 50 mensais) na futura moradia.

Ao investigar os motivos dessa prática, a hipótese que mais pareceu se adequar à realidade entendeu que famílias da Faixa 1 que têm vínculo salarial estável e possivelmente com uma poupança prévia, buscaram uma solução mais rápida para a obtenção do imóvel que os procedimentos que envolvem os que estão na Faixa 1, isto é: cadastro municipal, critérios de prioridade e sorteio. Ao buscar a Faixa 2, mesmo sendo Faixa 1, famílias que têm o orçamento pressionado pelo aluguel ou são de moradias precárias e em áreas vulneráveis pareciam ter encontrado uma estratégia interessante para acelerar a obtenção da casa própria.

As avaliações também buscaram entender a inserção urbana dos empreendimentos, estudando sob quais lógicas sócio-espaciais foram alocados. Ao analisar este fenômeno em quatro diferentes escalas (regional, municipal, do empreendimento e da unidade habitacional) e três dinâmicas distintas (grau de proximidade ou distância dos centros, acesso a equipamentos e serviços e avaliação de mobilidade), os estudos feitos no Rio de Janeiro e São Paulo identificaram que os empreendimentos da Faixa 1 encontram-se majoritariamente em áreas periféricas, enquanto os conjuntos habitacionais da Faixa 3 são os que mais se aproximam dos centros urbanos e, portanto, áreas com maior acesso a equipamentos e serviços. O mapa abaixo, extraído do documento “Ferramentas para Avaliação da Inserção Urbana dos Empreendimentos MCMV”, revela a localização das unidades habitacionais Faixa 1 em relação à densidade dos postos de emprego no município de São Paulo.

Densidade de postos de empregos no município de São Paulo e empreendimentos da Faixa 1

Foram encontrados ainda problemas relacionados à habitabilidade —nem todos os empreendimentos adequam-se às diferentes composições e tamanhos familiares; aos custos inerentes à moradia —são maiores que os valores das prestações e, portanto, ainda caros para a baixa renda; e dificuldades de adequação ao uso —a reprodução de um modelo construtivo que desconsidera diversidades regionais.

O programa tem-se mostrado bem-sucedido no que concerne a segurança da posse do imóvel, desde que quitadas as parcelas. Além disso, as famílias em condições de vulnerabilidade, sem acesso a saneamento básico e moradia segura foram priorizadas no atendimento.

Como já mencionado em post aqui no blog,  essas condições territoriais —ou o “efeito território” de estar inserido em áreas de vulnerabilidade social e distante dos centros de uma metrópole— implicam na reprodução social das condições de vida a ponto de impactar na renda futura das pessoas que lá crescem.

As avaliações do Minha Casa Minha Vida abordam ainda uma série de outros aspectos, como a inserção urbana dos empreendimentos, além de impactos na vida dos beneficiários. Ambos estão disponíveis em *.pdf nos links:

Rio de Janeiro:
http://www.observatoriodasmetropoles.net/images/abook_file/relatorio_mcmv_rj_2015.pdf

São Paulo:
http://www.labcidade.fau.usp.br/arquivos/relat%C3%B3rio.pdf


[1] Faixa 1 : renda familiar mensal até R$ 1.600,00 ; Faixa 2 : renda familiar mensal até R$ 3.275,00; Faixa 3: renda familiar mensal até R$ 5.000,00. As faixas para a zona rural são anuais: Faixa 1 até R$ 15.000,00 ; Faixa 2 até R$ 30.000,00 e Faixa 3 até R$ 60.000,00.

Efeito território

Quando se fala em projetos de reorganização de grandes cidades e diminuição da exclusão social, como por exemplo o Plano Diretor da cidade de São Paulo, não é incomum haver aqueles que defendem a ideia da criação de moradias populares em áreas onde residem pessoas de classe média e alta.

A lógica argumentativa não é de difícil compreensão: áreas mais ricas da cidade são mais bem aparelhadas, têm mais opções de serviços e oferecem melhores alternativas de mobilidade.

Em grandes centros urbanos, as periferias são distantes e o acesso centro-periferia é difícil. Distância física transforma-se em distância social, graças à qual o contato entre pessoas do centro e da periferia ocorre quase que apenas quando os que residem nas periferias assumem funções de trabalho em áreas centrais da cidade. Pessoas de classe média e alta irem a bairros de classe trabalhadora é algo ainda mais raro, ou seja, essa dinâmica acaba criando guetos urbanos e acentua a exclusão social. Ainda que nas grandes cidades brasileiras também haja bairros pobres próximos às suas regiões centrais, a distância social permanece.

Estudos que discutem a influência de nascer em bairros pobres ou mais ricos na vida das pessoas são cada vez mais frequentes, em especial nas áreas de Sociologia Urbana e Urbanismo. Entre estes, o artigo “Geographic Effects on Intergenerational Income Mobility” (2014), publicado pelos pesquisadores americanos Douglas Massey, da Universidade de Princeton, e Jonathan Rothwell, do Instituto Brookings, merece destaque.

Segundo os autores, pessoas que passam os primeiros 16 anos de suas vidas morando em bairros mais pobres têm vivências que, mesmo mudando de bairro, não são superadas, ou seja, são como cicatrizes muito difíceis de serem apagadas.

As “cicatrizes” descritas pelos autores estão associadas a pontos como falta de infraestrutura local, desordem social, crime, violência e serviços públicos de má qualidade. Além disso, os autores retomam teses que já eram discutidas pela Escola de Chicago, de que o bairro onde as pessoas residem é um espaço fundamental de interação social e de criação de aspirações.

Os autores utilizaram dados do Panel Study of Income Dynamics and Census Data e aferiram que quem vive por 16 anos ou mais em vizinhanças mais pobres, independentemente das mudanças de residência que vier a fazer e da ascensão social que tiver, tende a ganhar US$ 910.000 a menos ao longo da vida do que se tivesse nascido em bairros mais ricos, considerando a realidade dos EUA.

Nesse sentido, de acordo com os autores, para haver mobilidade social e diminuição da diferença social é preciso que haja também uma reorganização do espaço urbano. Como Massey aponta: “À medida que a distribuição de renda fica mais desigual, ocorre o mesmo com a distribuição dos bairros. A concentração da riqueza e da pobreza aumentou. Os bairros pobres se tornaram mais pobres, e ficou mais difícil escapar do status socioeconômico da pobreza.” Assim, o bairro onde a pessoa nasce tenderia a ser um fator determinante da renda ao longo de sua vida. Como afirma Massey: “O talento e a habilidade se contraem quando as pessoas estão presas em ambientes segregados”.

Ainda que o estudo tenha sido conduzido nos Estados Unidos, em que a segregação espacial urbana é muito acentuada, não é difícil visualizar esse cenário no Brasil. Aqui a valorização do solo urbano está altamente correlacionada à presença de infra-estrutura e serviços de qualidade e, nas situações em que isso não ocorre, como nos encraves de favelas em áreas de maior renda, a diferença social é delimitada de maneira inequívoca pelo padrão de ocupação.

Nesse sentido, vale tomar esse estudo para refletir sobre como o espaço social e as relações sociais estão diretamente relacionados, bem como os impactos gerados por fatores que são ditos “aleatórios”: nesse caso, o bairro em que a pessoa nasceu.

A Prostituição, o Banco de Dados e as Variáveis “Invisíveis”

Fonte imagem: http://simplesmenteassimj.blogspot.com.br/2014/01/go-to-india.html

Neste post resolvi falar sobre um tema um pouco fora de contexto. Esse assunto, no entanto, me vem de vez em quando à cabeça desde que li algumas reportagens que falavam sobre o aumento do número de pessoas contaminadas pelo HIV no Brasil. Decidi, portanto, descrever hoje um dos estudos mais interessantes com que já me deparei: “Sex workers and the cost of safe sex”, realizado na Índia.

Um motivo que torna este estudo especial é o fato de o banco de dados ter evidenciado algumas questões que tiveram de ser contornadas. Mas antes de falar sobre isso, vamos entender um pouco melhor as circunstâncias do estudo.

Sonegachi é um dos bairros de prostituição mais antigos e “bem-estabelecidos” de Calcutá. Essa região, segundo os autores, tem uma demanda estável de clientes porque fica próxima à Universidade de Calcutá. As ruas são estreitas o bastante para não permitirem a circulação de carros e possuem uma densidade grande de prédios entre 2 e 3 andares. Cada um desses prédios contém prostíbulos que oferecem uma gama muito variada de serviços e infra-estrutura. As garotas de programa quase sempre trabalham sob o comando de cafetões ou cafetinas e geralmente precisam pagar 50% da renda em troca de proteção ou aluguel. A prostituição em Sonegachi é um mercado muito competitivo. Em 1997, 4.000 garotas de programa trabalhavam em 370 prostíbulos atendendo 20.000 clientes por dia.

Com relação ao tema HIV, uma das razões pelas quais a contaminação pelo vírus é alta na região era porque que os homens tinham forte resistência ao uso da camisinha. A teoria econômica indica que, além de ser uma função da oferta e da demanda, o preço dos programas é determinado pelos atributos de cada garota. Como os homens geralmente preferiam não usar preservativos, era de se esperar que exigir sexo seguro tinha um impacto negativo sobre o preço do programa.

Assim, os autores buscavam com este experimento estimar essa perda na renda. Do ponto de vista de políticas públicas, essa estimativa é muito interessante pois o governo poderia, por exemplo, incentivar o uso de preservativos compensando de alguma forma as profissionais pelo decréscimo de seus ganhos. Note que, a situação aqui discutida, claramente não permitia monitoramento pois as negociações aconteciam, muitas vezes, entre quatro paredes.

Chegamos, então, a uma dificuldade desse estudo. Ao analisar o banco de dados, notou-se que algumas garotas com renda mais alta declaravam também que sempre obrigavam seus clientes a usarem camisinha. Significava isso, então, que a exigência, na realidade, não afetava a renda? Ou significa que as entrevistadas estavam mentindo? Provavelmente nem um nem outro! A explicação está nas variáveis não-observáveis. A beleza, por exemplo, é certamente algo que tem impacto sobre o preço do programa e, ao mesmo tempo, é uma variável imensurável, correto? Sim! Ora, como medimos a beleza? Mais ou menos bonita? A critério de quem? Esses atributos “invisíveis”, portanto, tiveram de ser levados em consideração na análise de preço.

Mas para lidar com tais dificuldades, existe a econometria. Neste experimento, os autores utilizaram variáveis instrumentais[1]. A solução achada foi usar um programa implementado pelo sistema de saúde no qual 12 garotas de programa foram recrutadas para educar e distribuir panfletos com informações sobre o uso de preservativos e os riscos do HIV[2]. Essa estratégia atendeu bem às exigências metodológicas, mas, para se certificarem de que as estimativas estavam próximas à realidade, uma outra estratégia de “enumeração” de cada garota também foi utilizada.[3] Usar dados em painel seria outra solução muito boa mas não foi utilizada pois os autores não tinham acesso a este tipo de informação.[4]

Resultados: o uso da camisinha diminuía a renda entre 66% e 79%! Agora, sabendo o grande impacto que a camisinha possui no preço do programa, as profissionais poderiam, por exemplo, fazer esforços conjuntos em forma de sindicatos para promover ações contra o sexo desprotegido. Os autores também sugerem que ações como essa poderiam ao mesmo tempo partir do governo que, no entanto, precisaria antes legalizar a profissão. Essas sanções, portanto, serviriam para compensar o impacto negativo da camisinha e diminuir a oferta de programas sem proteção.

Bibliografia:

GUPTA, Indrani, et al. Sex Workers and the Cost of Safe Sex: the compensating differential for condom use among Calcutta prostitutes. Journal of Development Economics. Vol. 71, p. 585-603. 2003.


[1] Variáveis instrumentais têm de obedecer a três regras básicas: (1) devem ter correlação com a variável endógena do modelo (neste caso, a variável que indica se a garota exige o uso ou não camisinha); (2) devem afetar a variável dependente (neste caso, o preço do programa) somente “através” da variável endógena; (3) e não podem pertencer ao modelo a ser estimado.

[2] A VI, neste experimento, era então uma variável indicando se a garota de programa recebeu o panfleto distribuído pelas educadoras.

[3] Neste processo, os pesquisadores listaram os bordéis de Sonegachi. A partir disso, uma amostra aleatória de cada prostíbulo foi selecionada e, em seguida, uma amostra aleatória de garotas de programa foi selecionada também. Cada garota dessa amostra recebeu um número de identificação que indicava a sequência em que cada uma foi localizada na rota dos pesquisadores.

[4] Estudos em que cada indivíduo é observado ao longo do tempo. A análise desse tipo de dado permite o controle das variáveis não-observáveis como beleza, charme etc.

São Pedro: Traga a Chuva!

Apesar do grande potencial hídrico do Sudeste do Brasil, este ano ficou marcado por uma crise no abastecimento de água que parece ainda estar só no começo. O fornecimento de água foi afetado devido à falta de planejamento mas também por episódios climáticos.

O que muitos não sabem é que, além de ser fonte de água, a chuva já serviu também como ferramenta de avaliação. Isto mesmo! A professora da Universidade de Brown, Christina Paxson (1992) usou índices de precipitação para investigar o comportamento econômico de famílias de baixa renda na Tailândia. Ela percebeu que a chuva poderia representar a variabilidade da renda dos domicílios. Isto porque as famílias investigadas viviam da plantação de arroz, que depende bastante de água. A idéia de Paxson foi testar a “Hipótese da Renda Permanente”, ou seja, a hipótese de que o padrão de consumo das pessoas em um determinado momento não é definido pela renda daquele mesmo momento mas sim pela renda que elas esperam ter durante toda a vida.

No caso das famílias produtoras de arroz, as chuvas representam choques positivos na renda, mas esperava-se que eles guardassem esse dinheiro adicional advindo da chuva segundo a Hipótese da Renda Permanente. Na pesquisa social é sempre um desafio distinguir as relações causais; mas neste caso, por a chuva ser uma variável externa ao modelo, o estudo fica muito claro e “limpo”. Os resultados de Paxson mostram que os indivíduos de fato poupam grande parte da renda transitória. Esta conclusão é importante pois indica que o bem-estar de famílias pobres provavelmente não é prejudicado pelas oscilações na renda.

Adotando uma lógica parecida, Yang e Maccini (2009) desenvolveram um estudo na Indonésia em que usaram a chuva como variável para investigar os efeitos de eventos extraordinários ocorridos durante a fase da primeira infância. A hipótese dos pesquisadores é que esses choques afetariam o desenvolvimento pessoal. Os resultados mostraram que as mulheres que nasceram em anos de muita chuva vieram a ter padrões socioeconômicos mais altos durante a vida adulta. Essas mulheres também autodeclararam estados de saúde melhores, eram 0,57 centímetro mais altas e frequentaram a escola durante mais tempo do que aquelas que nasceram em anos com níveis normais de precipitação, líquidos de outras causas.

Este padrão, no entanto, não foi encontrado entre os homens, ou seja, anos chuvosos no nascimento não estão associados a modificações nos níveis socioeconômicos dos homens estudados. Isto indica, portanto, um viés de gênero que precisa ser explicado. Além de ressaltar a importância de fatos da infância sobre a trajetória socioeconômica das pessoas, este estudo destaca os fatores externos improváveis que a afetam para que possamos isolá-los e mensurar seu impacto.

Fascinante, não?

Bibliografia
PAXSON, C. Using Weather Variability to Estimate the Response of Savings to Transitory Income in Thailand. American Economic Review. Vol. 82(1), p. 15-33, 1992.
YANG, D., Maccini, S. Under the Weather: Health, Schooling, and Economic Consequences of Early-Life Rainfall. American Economic Review. Vo. 99(3), p. 1006-1026, 2009.

Trabalhando no campo, em plena metrópole

Nos últimos meses a Plan executou diversos trabalhos que exigiram visitas a campo. Pesquisas quanti e qualitativas realizadas com aplicação de questionários padronizados, entrevistas, grupos focais e até com a teoria dos jogos.

Este post mostra um pouco dos processos pelos quais passam nossas equipes de pesquisa que trabalham na Região Metropolitana de São Paulo fazendo selagem e cadastramento de famílias em áreas ocupadas de forma precária e/ou irregular.

A selagem envolve a localização de um edifício na planta e seu registro sob um código único. Esse código é chamado de “selo” pois é comum que seja afixado na fachada da casa com um autocolante.

O cadastramento é a coleta de informações demográficas, sociais e econômicas das famílias para que posteriormente recebam algum atendimento habitacional —regularização fundiária, reforma, infra-estrutura de saneamento, reassentamento temporário ou permanente.

O trabalho exige uma série de preparativos. De início, é de extrema importância que todos os moradores sejam previamente comunicados pelo poder público sobre o processo que será iniciado, e que assistentes sociais deem plantão na área para prestar esclarecimentos às famílias.

Uma vez que os moradores sabem do trabalho a ser realizado pela equipe de campo, esta precisa estar munida de diferentes recursos para que os dados produzidos e coletados sejam compatíveis. O primeiro recurso é o Mapa de Selagem.

Produzimos os dados de identificação do domicílio a partir de um mapa topográfico previamente elaborado por uma equipe especializada. Mapa topográfico e selos fundem-se no que chamaremos de Mapa de Selagem. O trabalho da selagem começa antes do cadastramento e, em condições ideais, é finalizado ainda antes do início da aplicação de questionários.

Orientados pela localização dos domicílios, os pesquisadores iniciam a aplicação de questionários. O instrumento usado pelos cadastradores da Plan é digital: um tablet que registra fotos e localização por GPS do domicílio cadastrado e envia as informações coletadas diretamente para um servidor.

Por meio dessa tecnologia, o trabalho tem sido realizado de maneira mais ágil e com maior confiabilidade. Com as fotos integradas ao cadastro evita-se que haja erros de associação entre famílias e domicílios; com os verificadores automáticos de consistência, aumenta a confiabilidade das informações; por meio do GPS, comprova-se os locais visitados pelo pesquisador e os horários das visitas, aumentando a transparência do processo tanto para moradores como para o poder público.

O Bolsa Família Contribui para Reduzir a Desnutrição?

O Ministério do Desenvolvimento Social apresentou ontem, 16 de setembro, um estudo que indica melhora nos padrões nutricionais das crianças entre 0 e 5 anos contempladas pelo programa Bolsa Família.

A fase da primeira infância é um período crítico pois determina a trajetória de desenvolvimento das pessoas nas habilidades cognitivas, sociais, intelectuais e psicológicas. Case, Lubotsky e Paxon (2002), por exemplo, mostraram que crianças com más condições de saúde tendem a se tornar adultos com padrões socioeconômicos mais baixos.

Para medir a saúde nutricional das crianças, o estudo do MDS utilizou a estatura e o peso como indicadores. A pesquisa envolveu avaliações transversais e longitudinais feitas entre 2008 e 2012, e mostrou que houve uma redução no déficit de saúde das crianças contempladas ao comparar estes números com os padrões de referência da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Fonte: (Jaime et al. 2014)

Podemos, então, concluir que o Bolsa Família tenha sido o responsável por esta melhora na saúde das crianças? Acredito que não. Apesar de os números mostrarem que de fato os padrões nutricionais melhoraram, não há indicação no estudo de que a amostra analisada tenha incluído crianças não contempladas pelo programa, portanto, não é possível atribuir esse efeito exclusivamente ao Bolsa Família.

Na maioria dos casos, a maneira mais apropriada de se avaliar o impacto de um programa social é comparar as pessoas afetadas pelo programa com um grupo contrafactual, ou seja, um grupo que não participou do projeto. Esses grupos devem ser em média iguais em variáveis potencialmente causais como renda familiar e escolaridade, bem como em características não-observáveis. Para que esses fatores se diluam, deve haver uma seleção aleatória dos membros de cada grupo, possibilitando iguais condições para compará-los.

O motivo de realizar avaliações de impacto utilizando esse método é o de poder “isolar” o efeito do programa de outros fatores externos, como a chegada de uma empresa na comunidade, por exemplo, ou a presença de até mesmo outros programas sociais.

É bastante provável, no entanto, que o Bolsa Família tenha afetado positivamente a saúde dessas crianças. De fato, o estudo mostra que o déficit de estatura de um grupo acompanhado durante os 5 anos diminuiu ao longo do tempo, e é bastante plausível a hipótese de que a melhora nas condições nutricionais propiciada pela combinação de maior poder aquisitivo, assiduidade escolar e as condicionalidades de saúde seja uma das causas desse aumento da estatura média. Por outro lado, é difícil dimensionar o impacto do Bolsa Família pois o programa pode ter “pegado carona” com outras ações públicas ou privadas que tenham gerado benefícios semelhantes.

Há questões éticas envolvendo experimentos aleatórios, pois programas que provavelmente tragam benefícios à população não deveriam ficar restritos a um pequeno grupo. Por isso, outras técnicas de avaliação como, por exemplo, Diferenças em Diferenças, podem ser mais apropriadas.

Referências

JAIME, Patricia C.; et al. Desnutrição em Crianças de Até Cinco Anos Beneficiárias do Programa Bolsa Família: Análise Transversal e Painel Longitudinal de 2008 a 2012. Cadernos de Estudos: Desenvolvimento Social em Debate. n. 17. p. 49-62. 2014

Disponível em: http://www.mds.gov.br//saladeimprensa/noticias/2014/setembro/tempo-de-permanencia-das-criancas-no-bolsa-familia-contribui-para-reduzir-desnutricao

MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO SOCIAL. Tempo de permanência das crianças no Bolsa Família contribui para reduzir desnutrição.

CASE, Anne; LUBOTSKY, Darren; PAXON, Christina. Economic Status and Health in Childhood: The Origins of the Gradient. The American Economic Review. v. 92. n. 5. p. 1308-1334. 2002.

Conquistas em 2013

Dois mil e treze foi de importantes realizações para a Plan. Fechamos o ano com o melhor resultado desde nossa fundação em 2007. Destaco a realização de duas avaliações complexas envolvendo programas verdadeiramente transnacionais, com parceiros baseados em 37 países. Estamos satisfeitos por termos feito a diferença na vida de um número grande de pessoas, em particular por intermédio de avaliações na área de direitos humanos.

O foco na avaliação de programas de advocacy (a defesa de causas nos organismos decisórios como governos, legislaturas e organizações multilaterais), fez com que a Plan aperfeiçoasse os métodos de atuação nessa área. Apresentamos um trabalho sobre o assunto no Seminário da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação, assinado pelo consultor William Faulkner.

Destaco também nossa evolução nas pesquisas de campo com questionários padronizados (surveys). Em 2013 estivemos em dois terços dos estados brasileiros. Fizemos ainda sondagens por telefone para empresas e governos, sob coordenação do consultor João Martinho.

O ponto alto de nossa atuação de campo aconteceu em outubro. Aplicamos uma complexa pesquisa domiciliar em comunidades beneficiadas por obras de urbanização no Espírito Santo, envolvendo 1.800 famílias. A capacidade de coordenação de nossa gerente de avaliação Camila Cirillo e o apoio de nossa estagiária Ana Paula Simioni foram essenciais para o sucesso dessa pesquisa.

A ferramenta de mapeamento de indicadores locais foi outro marco de nossa trajetória em 2013. Esse software permite a governos e empresas priorizar suas políticas sociais por meio da identificação de carências de populações específicas em sua área de atuação. Para o seu desenvolvimento, contamos com a inventividade de Mauro Zackiewicz na produção de uma interface gráfica original.

Nenhuma dessas realizações teria sido possível sem o apoio de centenas de pesquisadores de campo e consultores associados, aos quais mais uma vez agradecemos.

Em 2014 seguiremos apostando no crescente mercado da avaliação de programas, contribuindo para o aperfeiçoamento da gestão pública e da participação social.

Um dia de campo

No trabalho de campo das avaliações de políticas públicas nos deparamos com muitas realidades. Quase sempre distintas entre si, complexas e contraditórias, elas chocam, impactam, geram um turbilhão de sentimentos e reflexões. Provocam tudo, menos a indiferença.

Na minha última experiência tive a oportunidade de conhecer “por dentro” uma comunidade do morro, de sentir a favela vivida.

Chegando lá a primeira sensação foi de desconforto. Logo na entrada, o aviso pichado no muro nos lembrou de que aquela área não nos pertencia: “por favor, abaixar o vidro, desliga o farol, tira o capacete”. Ali o trânsito não era livre.

Com o carro da Prefeitura chegamos somente até aquele ponto. O instrumento da nossa sensação de segurança ficou ali, estacionado no fim da rua. A partir daí somente becos, ruelas e escadarias. Um emaranhado de caminhos nos levava cada vez mais para o alto, mais perto do céu. A vista do alto do morro era espetacular, mas no trajeto, a pobreza e o lixo desenhavam o cenário do abandono.

Passamos três vielas, subimos uma escadaria e iniciamos nossa busca pelo primeiro entrevistado. Abandonar o mapa com os nomes das ruas e números das casas foi a primeira e mais sábia providência.

– “Boa tarde. Por favor, o senhor sabe onde fica a casa da Dona Marta?”

– “A esposa do Marcos? Ih, saiu e só volta no final do dia!”

– “E a casa da Marina?”

– “É aquela laranja logo ali, nos fundos da amarela, depois da escada.”

Chamamos à porta. Em meio às tarefas da casa, Marina me convidou para entrar.  Ainda desconcertada, permaneci ereta, retesada, porém com um sorriso constante, quase que forçado, tentando realizar minha entrevista. Foram necessários, no entanto, apenas alguns minutos para que o calor daquela casa quebrasse o gelo da minha redoma e me permitisse sentir a realidade. Água, bolo, café. De tudo que me ofereceu, aceitei apenas relaxar.

Saindo dali, conversamos com mais algumas famílias e seguimos pelos becos e escadarias. A sensação ainda era de desconforto, mas agora ela se misturava com a curiosidade, com a empatia, e ao final do dia dividia o espaço com muitos outros sentimentos.

À tarde, as pessoas começaram a voltar para suas casas, a senhora que subia o morro cumprimentou a vizinha que estava na janela; uma adolescente carregava o filho para perto do amigo que voltava da escola; na frente da vendinha do seu Antonio algumas crianças empinavam pipa e jogavam bola.

Naquele momento, a situação de pobreza que saltava aos olhos e a miséria de alguns foram ofuscadas pela constatação de que naquele espaço também existia algo de precioso.

A intensa circulação de pessoas, o uso e ocupação de todos os espaços e a vida comunitária ali presentes não se enquadravam nos padrões e dinâmicas vividos na cidade formal. A vontade de permanecer ali, de conhecer aquelas pessoas e tentar, ainda que em vão, experimentar a sensação de viver como todos eles, reverberou dentro de mim.

Carentes de muitos bens e serviços, acostumados a outras formas de violência e opressão, os moradores  de lá possuíam valores que nós perdemos em algum lugar no tempo. Saí com a certeza de que onde moro as pessoas não se relacionam, muito menos circulam tão livremente; lembrei de  histórias pessoas que angustiadas com as amarras de suas vidas escolheram o extremo, abrindo mão de tudo que tinham. Agora eu me pergunto: qual o preço dessa liberdade? E como deve ser morar e viver onde se quer, sem ter nada a perder?

Pesquisador, envie seu artigo

O Seminário da Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação (RBMA) é um evento anual onde se encontram os profissionais do setor no Brasil e os contratantes de avaliação dos setores público e privado. É uma excelente oportunidade de discussão dos resultados de pesquisas aplicadas. Ainda avaliamos pouco e falamos muito sobre avaliação. Então, se o seu trabalho de alguma forma analisa o desempenho de programas e projetos, faça de tudo para mandar seu artigo. A chamada foi prorrogada duas vezes –sinal de que você é muito bem-vindo. Envie sua proposta aqui até dia 24 de maio.