Tia, entendeu ou quer que eu desenhe?

Para aqueles que acompanham o trabalho da Plan não deve ser novidade o fato de que nós avaliamos projetos que tratam de vários temas e envolvem públicos bastante diversificados. A lista de perfis profissionais que participaram dos nossos trabalhos de campo já incluiu: empresários, trabalhadores de chão de fábrica, pequenos agricultores, proprietários de grandes fazendas, coordenadores de projetos sociais, beneficiários desses projetos e por aí vai.

Além da diversidade de posições ocupacionais e estratos de renda, as idades também são muito variadas e incluem até crianças. Já trabalhamos com projetos cujos beneficiários estão cursando o Ensino Infantil (até 6 anos de idade) e crianças que estão atravessando esse processo tão crítico que é a alfabetização (1º ano do Ensino Fundamental).

Quando as crianças são justamente o centro de um projeto, como podemos envolvê-las no trabalho de campo? Como entrevistar essas pessoas que estão desenvolvendo as diversas formas de se expressar?

Orientados por nossa consultora e educadora Gisela Wajskop, que se inspirou em estudos da Sociologia da Infância (Pinto & Sarmento, 1997, 1999; Corsaro, 2011), realizamos conversas em grupo (“grupos focais”) com crianças utilizando técnicas de observação seguidas de atividades de desenho. As crianças utilizam formas específicas de representação e simbolização do mundo que ultrapassam os limites da linguagem codificada em fala e texto. Se quisermos entender o que pensam e lhes darmos voz, o discurso adulto de perguntas e respostas estruturadas pode não ser o meio mais eficaz. As conversas com crianças requerem uma abordagem própria, ajustada a sua visão de mundo curiosa, especulativa, aberta, imagética, daí a opção pela utilização do recurso visual.

Os desenhos são meios riquíssimos de comunicação que podem incluir não somente objetos, mas também movimentos, sons e sentimentos. Ao tentar representar pessoas ou lugares, por exemplo, as crianças desenham o que elas sabem, ou seja, elas mostram uma versão do que elas veem. Ainda que enfrentem dificuldades para incluir em seus desenhos técnicas mais regradas, como a perspectiva, elas inventam soluções para representar objetos com três dimensões (Anning, 1997). Essas soluções não são imediatamente perceptíveis para o adulto treinado na convenção mas fazem pleno sentido quando descritas pelas próprias crianças. Em um mundo dominado pela linguagem padronizada e normatizada, as crianças entram em um território muito mais livre ao trabalhar com materiais de linguagem expressiva, como papel, lápis, giz de cera ou até massinha de modelar.

O desenho acima mostra o entendimento de um aluno de 7 anos sobre um aplicativo de apoio ao letramento utilizado por sua turma. A primeira versão desse aplicativo contava a história do Motogato, um entregador de pizzas que era ajudado por seu chefe, o Sr. Cachorrão, para escrever o endereço dos seus clientes. A criança destaca a expressão angustiada do Motogato tentando navegar pelo universo urbano congestionado chegando corretamente ao seu destino com as informações que lhe são passadas —lugar semelhante ao do próprio aluno face ao desafio de dominar o código da escrita no processo de alfabetização.

Já a ilustração abaixo, criada por uma aluna de 5 anos, reconta simbolicamente a história narrada no livro “Menina Bonita do Laço de Fita”, de Ana Maria Machado. No desenho, a aluna fundiu na mesma representação as características da protagonista do livro e também do coelho, a outra personagem, que não só se apaixona por ela mas quer poder ser como ela.

Elaborado durante a mesma atividade de leitura do livro “Menina Bonita do Laço de Fita”, o desenho abaixo chama a atenção para o direcionamento da atenção da criança. Embora não tenha reproduzido elementos que surgiram na história do livro, o aluno mostrou curiosidade e capacidade de observação ao desenhar elementos do ambiente escolar onde estávamos, incluindo até o meu tripé, que usei para apoiar a câmera filmadora e registrar toda a entrevista. Por mais interessante que pudesse lhe parecer o livro, a presença de um pesquisador estranho e seus instrumentos sofisticados de trabalho, totalmente fora de contexto na rotina de uma escola no interior do Ceará, decerto lhe chamou mais a atenção do que a história de um coelho que se apaixonava por uma menina. Não se pode tirar a razão desse menino de querer destacar essa descoberta em seu desenho.

Os desenhos, portanto, ao fazer despertar representações usando formas e cores podem revelar experiências das crianças com os livros e materiais didáticos, por exemplo, ou até mesmo suas opiniões e sentimentos em relação ao ambiente escolar ou familiar. Ademais, a simples observação das crianças ao criarem seus desenhos pode revelar muitas questões ligadas ao seu desenvolvimento. A intimidade com o lápis e giz de cera pode ser índice de habilidades motoras enquanto que o compartilhamento do material e interações entre as crianças durante a atividade também expõem habilidades sociais e emocionais.

Fontes citadas:

ANNING, Angela. Drawing Out Ideas: Graphicacy and Young Children. International Journal of Technology and Design Education 7. p. 219 – 239, 1997.

CORSARO, W. Sociologia da Infância. Porto Alegre: Artmed, 2011

PINTO, M. & SARMENTO, M. J. (Org.). As crianças e a infância: definindo conceitos, delimitando campos. In: As crianças: contexto e identidades. Braga, Portugal: Centro de Estudos da Criança, 1997.

WAJSKOP, Gisela. Linguagem Oral e Brincadeira Letrada nas Creches. Educ. Real., Porto Alegre, 2017.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.