Ensinamentos da COVID-19 para a pesquisa qualitativa em Angola

É incontestável o impacto da pandemia da COVID-19 em diversos setores da economia e da sociedade neste ano de 2020. E com o setor de avaliação e monitoramento de projetos sociais não seria diferente. Todo o setor teve que repensar a forma de executar suas atividades, a maior parte delas passou a ser executada remotamente via plataformas de comunicação virtual. Reuniões com clientes, entrevistas com informantes chave, realização de grupos focais, apresentação de resultados, tudo isso foi readaptado para o mundo virtual para que os projetos de pesquisa e avaliação não parassem. É certo que algumas atividades já vinham sendo realizadas de forma remota há algum tempo, uma vez que avaliadores nem sempre vivem nas localidades onde os projetos sociais são conduzidos. Contudo, definitivamente, em alguns projetos essa readaptação se transformou em um grande desafio e gerou muitos ensinamentos para todos os envolvidos.

Como exemplo de um projeto desafiador que a Plan teve esse ano, cito o estudo qualitativo sobre o conhecimento, as atitudes, as práticas e as normas sociais e de gênero relacionados à interação entre cuidadores e crianças de 0-59 meses em três províncias de Angola (Bié, Huíla e Luanda). Este estudo foi encomendado pelo UNICEF Angola e contava com a visita de pesquisadores às três províncias para entrevistar informantes chave, como especialistas e profissionais, assim como gestores públicos das áreas da saúde e educação, ou ainda de áreas afins. Além, dos próprios cuidadores, especialmente pais e mães, que eram o público-alvo do estudo. A principal questão que se impôs para os pesquisadores da equipe foi: como realizar uma pesquisa qualitativa como essa que exigiria muito da observação participante do modo como pais e mães cuidam de suas crianças pequenas, sem estar presente?

A principal solução encontrada foi selecionar e treinar pesquisadores locais que pudessem ir até as famílias, visitá-las em suas residências e entrevistá-las. Entretanto, em Angola, algumas províncias instituíram barreiras em suas fronteiras para que as pessoas não circulassem livremente pelo país, como foi o caso de Luanda. E o próprio UNICEF não permitiu que houvesse o contato mais próximo entre pesquisadores e entrevistados com receio do contágio. Os pesquisadores locais deveriam então fazer as entrevistas por telefone. Duas dificuldades foram impostas nessa decisão: a seleção dos pesquisadores e o precário sistema de comunicação no país.

Xavier Donat - Creative Commons
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Ao longo da primeira fase da pesquisa, entrevistas virtuais com agentes comunitários e uma professora universitária acenderam a ideia na equipe de que jovens estudantes da área das ciências sociais e ativistas sociais, homens e mulheres, seriam ideais para conduzir as entrevistas com os cuidadores. Feita a seleção e o treinamento dos entrevistadores, faltava a seleção dos cuidadores. Estes, por sua vez, deveriam ter acesso pelo menos a um telefone celular, o que de certo diminuiu a chance de detectar famílias mais vulneráveis e mais distantes das áreas urbanas. E, uma vez selecionados, os entrevistadores encararam o desafio de ter algumas ligações de qualidade bastante precária ou de ter constantes interrupções na transmissão das chamadas.

Mesmo diante de todas as dificuldades, 106 pessoas ao todo foram entrevistadas para este estudo, sendo 34 informantes chave e 72 cuidadores (39 homens e 32 mulheres). As entrevistas qualitativas por telefone, ao mesmo tempo em que apontavam as perdas, também nos falavam de ganhos. Refiro-me às perdas quando, nas gravações feitas pelos pesquisadores, ouvíamos uma criança a chorar ou a pedir pelo pai e não ficávamos sabendo como os cuidadores reagiram no momento, não vimos sua expressão facial ou sequer o gesto que fizeram para conter o choro ou a súplica, ou seja, não vimos como os entrevistados se comportam com as crianças pequenas, assim como não vimos os lugares onde vivem, não sentimos o cheiro da comida que dão as crianças ou não sabemos como são as roupas que vestem seus filhos.

E quanto aos ganhos, refiro-me ao fato de os pesquisadores locais saberem como tratar e falar com os cuidadores, qual tratamento usar para cada pessoa, e a intimidade que criaram, sendo eles nativos do país, fez a diferença para que os dados coletados pudessem, mesmo com todos empecilhos possíveis, gerar um quadro o mais próximo da realidade diária do público-alvo. Um outro ponto forte dessa pesquisa foi poder contar com uma consultora italiana que morou por aproximadamente 10 anos em Angola e que acabou se casando com um angolano. Em muitos momentos, essa consultora pode traduzir para a equipe vocabulários, gírias, e explicar as disposições geográficas e culturais das três províncias em questão, ajudando assim a preencher alguns pontos que as entrevistas deixaram vagos.

A falta de experiência de alguns dos pesquisadores locais não se sobrepôs ao cuidado que tiveram para se aproximar remotamente de pessoas que estavam às vezes do outro lado do país. Chamou especial atenção a entrevista em que ao final a mãe chorou e agradeceu a paciência e o cuidado que a pesquisadora teve ao ouvi-la por tanto tempo. Como a pesquisa era sensível à questão de gênero, os pesquisadores locais foram divididos de forma que mulheres entrevistariam cuidadoras mulheres e homens entrevistariam cuidadores homens.

Dentre os muitos achados da pesquisa, destaco aqui, inclusive, como a questão de gênero permeou todas as temáticas levantadas pelo estudo. As mulheres são as principais responsáveis pelos cuidados com as crianças menores de 5 anos, pois são elas que as alimentam, banham, levam ao médico para consultas e para vacinar, e ficam a maior parte do tempo apoiando-as em seu desenvolvimento cognitivo e físico. Mesmo quando a mãe também trabalha fora de casa, como a maioria dos homens entrevistados, é ela a responsável por redirecionar essa tarefa para outras mulheres – babás, irmãs, primas, avós e, em grande medida, as filhas mais velhas. Desde pequenas as meninas são incumbidas de cuidar das crianças pequenas da família, e isso inclui irmãos, primos e muitas vezes vizinhos mais próximos. Isso acontece mesmo quando são elas muito jovens ou quando na família a criança mais velha é um menino.  

Algumas pessoas entrevistadas, especialmente as moradoras de áreas mais urbanizadas, destacaram haver uma mudança, mesmo que tímida, da relação entre homens e mulheres quanto à divisão de tarefas domésticas e de cuidados com os filhos. Homens estariam cada vez mais apoiando as mulheres nestas atividades. Muitos disseram durante as entrevistas que estariam realizando mais atividades domésticas e ficando mais com as crianças, quando dispunham de tempo para tanto (o que para muitos é algo raro, às vezes realizado aos finais de semana), e que acompanhavam as esposas às consultas médicas desde a gestação até as consultas de rotina do bebê (embora os profissionais de saúde apontem que são as mulheres ainda que mais estão presentes nas consultas e participam de palestras informativas sobre saúde e cuidados com as crianças pequenas).

Paulo César Santos (c) Creative Commons
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A desigual divisão sexual de tarefas domésticas e com as crianças é ainda mais penoso para as mães solteiras. Algumas das entrevistadas disseram se sentir constrangidas por não ter o nome do pai no registro de nascimento da criança, o que as leva a não querer registrá-las. Sobre as mães solteiras, especialmente as mais jovens, recaem muitas responsabilidades e cobranças, muitas vindas da própria família, e não causa estranhamento que a entrevistada mencionada que chorou com a pesquisadora local seja uma mãe solteira responsável por cuidar de três crianças sozinha.

Por um lado, a covid-19 nos impossibilitou a nós, pesquisadores da Plan, ou aos pesquisadores locais, de realizar a pesquisa da forma como deve ser feita, isto é, no campo, observando ativamente as pessoas e suas vivências de perto ou como nos disse um dos entrevistados com pesar quando soube que a entrevista seria virtualmente: “como poderei ver sua alma, sem você aqui na minha frente?” Por outro lado, a pandemia nos permitiu facilitar para que alguns dos jovens entrevistadores angolanos pudessem experimentar uma nova atividade, a partir do aprendizado de novas metodologias e ferramentas de trabalho, apresentando-se assim não apenas como uma mão de obra mais preparada para organizações internacionais interessadas em apoiar projetos sociais no país, mas acima de tudo como pessoas conscientes e empáticas à situação e necessidades da população ao seu redor.