Compartilhando experiências

Iniciamos 2015 e a comunidade internacional de avaliadores nos convida a refletir sobre a importância da avaliação e compartilhar nossas experiências como avaliadores.  O movimento “2015 – Ano Internacional da Avaliação” tem sido promovido em âmbito nacional e internacional, explicitando as possíveis formas de contribuição.

 

Entre as recomendações, levanta-se a necessidade de difundirmos nosso conhecimento e experiências em avaliação, estejam elas relacionadas à aplicação dos diferentes métodos de pesquisa, às ferramentas de análise de dados, à sua comunicação ou até mesmo ao processo de levantamento das informações.

De fato, dividir nossas experiências é de grande valor para os avaliadores. Além de ser reconfortante, pois que lidamos diariamente com grandes desafios comuns, a prática contribui para o aprimoramento dessa nossa tão complexa função. Por isso, listamos abaixo algumas iniciativas de troca de experiências, de compartilhamento de material didático e de estudos de caso, onde é possível participar de cursos, palestras e encontrar oportunidades de trabalho, entre outras possibilidades do mundo virtual dos avaliadores.

No Brasil ainda há poucos espaços virtuais de trocas sobre avaliação. A grande aglutinadora desses interesses tem sido a Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação que oferece para cadastrados um espaço de intercâmbio de experiências, oportunidades e divulgação cursos e materiais didáticos sobre avaliação. Outro espaço virtual de aprendizagem é oferecido pela página de avaliação econômica da Fundação Itaú Social, que disponibiliza uma plataforma com conteúdo reduzido do curso que oferecem anualmente para iniciantes na profissão.

Já no âmbito internacional, há muitas iniciativas desse tipo vinculadas especificamente à avaliação. Entre elas, destaco as que mais utilizo e recomendo:

1)     MyMande: Gerenciado pela UNICEF e IOCE (International Organization for Cooperation in Evaluation) o site apresenta-se como uma plataforma interativa para compartilhamento de conhecimentos relacionados a monitoramento e avaliação. Procura oferecer aprendizado e servir como meio para fortalecer a comunidade global de avaliação. Lá você encontra ferramentas de avaliação (guias de aplicação de avaliações em diferentes setores, exemplos de instrumentais, etc.), cursos e seminários online.

2)     BetterEvaluation: O site está voltado para disseminar o uso da avaliação, oferecendo guias com check-list de como planejar e executar uma avaliação, como decidir o melhor enfoque para sua avaliação, materiais diversos sobre avaliação (estudos de caso, textos de meta-avaliação, etc), orientações para realizar avaliações em áreas específicas, etc.

3)     O blog da American Evaluation Association: A Tip-a-Day by and for Evaluators, é um blog patrocinado pela AEA destinado a oferecer dicas de avaliadores e para avaliadores. No ar desde 2010, os posts do blog são bem variados e interessantíssimos. Lá é possível encontrar dicas valiosas e até mesmo contribuir enviando texto para aea365@eval.org.

4)     Blogs do Banco Mundial: Entre eles destaco o blog Development Impact criado por membros do Development Research Group do Banco Mundial. A finalidade é ser um fórum de discussão voltado às questões que surgem durante o desenvolvimento de avaliações de impacto: como conduzir, o que aprendemos com essas avaliações, como podemos melhorar nossa prática, etc.

5)     Outra forma de se familiarizar com os dilemas e soluções dos avaliadores é fazer parte das listas de discussão. Uma que diariamente gera grande volume de informações é a Pelican Initiative: https://dgroups.org/groups/pelican. A proposta é ser um canal de comunicação de profissionais que trabalham com transformações sociais, ajudando a aprender mais com o que fazemos e, ao mesmo tempo, ter o maior impacto possível sobre os processos de mudança social em que nos envolvemos.

Além dessas, há muitas outras formas de se familiarizar com o mundo da avaliação ou aprofundar nas peculiaridades do trabalho como avaliador. No blog da Plan vamos trazer ao longo de 2015 textos que reflitam o dia-a-dia do nosso trabalho, compartilhando conhecimentos acumulados, ferramentas e estudos casos, a fim de contribuir com movimento de fortalecimento e profissionalização da avaliação.

Um dia de campo

No trabalho de campo das avaliações de políticas públicas nos deparamos com muitas realidades. Quase sempre distintas entre si, complexas e contraditórias, elas chocam, impactam, geram um turbilhão de sentimentos e reflexões. Provocam tudo, menos a indiferença.

Na minha última experiência tive a oportunidade de conhecer “por dentro” uma comunidade do morro, de sentir a favela vivida.

Chegando lá a primeira sensação foi de desconforto. Logo na entrada, o aviso pichado no muro nos lembrou de que aquela área não nos pertencia: “por favor, abaixar o vidro, desliga o farol, tira o capacete”. Ali o trânsito não era livre.

Com o carro da Prefeitura chegamos somente até aquele ponto. O instrumento da nossa sensação de segurança ficou ali, estacionado no fim da rua. A partir daí somente becos, ruelas e escadarias. Um emaranhado de caminhos nos levava cada vez mais para o alto, mais perto do céu. A vista do alto do morro era espetacular, mas no trajeto, a pobreza e o lixo desenhavam o cenário do abandono.

Passamos três vielas, subimos uma escadaria e iniciamos nossa busca pelo primeiro entrevistado. Abandonar o mapa com os nomes das ruas e números das casas foi a primeira e mais sábia providência.

– “Boa tarde. Por favor, o senhor sabe onde fica a casa da Dona Marta?”

– “A esposa do Marcos? Ih, saiu e só volta no final do dia!”

– “E a casa da Marina?”

– “É aquela laranja logo ali, nos fundos da amarela, depois da escada.”

Chamamos à porta. Em meio às tarefas da casa, Marina me convidou para entrar.  Ainda desconcertada, permaneci ereta, retesada, porém com um sorriso constante, quase que forçado, tentando realizar minha entrevista. Foram necessários, no entanto, apenas alguns minutos para que o calor daquela casa quebrasse o gelo da minha redoma e me permitisse sentir a realidade. Água, bolo, café. De tudo que me ofereceu, aceitei apenas relaxar.

Saindo dali, conversamos com mais algumas famílias e seguimos pelos becos e escadarias. A sensação ainda era de desconforto, mas agora ela se misturava com a curiosidade, com a empatia, e ao final do dia dividia o espaço com muitos outros sentimentos.

À tarde, as pessoas começaram a voltar para suas casas, a senhora que subia o morro cumprimentou a vizinha que estava na janela; uma adolescente carregava o filho para perto do amigo que voltava da escola; na frente da vendinha do seu Antonio algumas crianças empinavam pipa e jogavam bola.

Naquele momento, a situação de pobreza que saltava aos olhos e a miséria de alguns foram ofuscadas pela constatação de que naquele espaço também existia algo de precioso.

A intensa circulação de pessoas, o uso e ocupação de todos os espaços e a vida comunitária ali presentes não se enquadravam nos padrões e dinâmicas vividos na cidade formal. A vontade de permanecer ali, de conhecer aquelas pessoas e tentar, ainda que em vão, experimentar a sensação de viver como todos eles, reverberou dentro de mim.

Carentes de muitos bens e serviços, acostumados a outras formas de violência e opressão, os moradores  de lá possuíam valores que nós perdemos em algum lugar no tempo. Saí com a certeza de que onde moro as pessoas não se relacionam, muito menos circulam tão livremente; lembrei de  histórias pessoas que angustiadas com as amarras de suas vidas escolheram o extremo, abrindo mão de tudo que tinham. Agora eu me pergunto: qual o preço dessa liberdade? E como deve ser morar e viver onde se quer, sem ter nada a perder?